Ensino remoto trouxe vários desafios e escancarou abismo social de alunos

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A pandemia da Covid-19 ocasionou uma mudança drástica nos métodos convencionais de ensino. Se antes, no modelo presencial, era proibido usar celulares em sala de aula, hoje o aparelho é indispensável para que os estudantes possam assistir às explicações dos professores e acompanhar, de forma remota, o conteúdo proposto pelos profissionais.

Ruptura foi necessária para se evitar a propagação do vírus em todo o mundo. Contudo, teve consequências tanto para os estudantes quanto para os profissionais da educação. Pesquisadora Lisanil da Conceição Patrocínio Pereira, da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), pontuou que impacto só poderá ser medido em longo prazo.

“Todos os institutos que fazem pesquisa têm dito que essas informações só serão consolidadas no futuro. Nesse momento, o que eu posso dizer é que a evasão é muito grande. Muitos alunos desistiram e as consequências disso para o Brasil serão significativas. Se você pensam que temos crianças em idade de serem alfabetizadas, teremos no futuro aumento de crianças analfabetas”, explicou.

Apesar disso, ela e seus estudantes de pós-graduação elaboraram pesquisas para entender essas mudanças na educação no âmbito de Mato Grosso. Por meio de questionários online, professores da rede estadual e municipal de ensino responderam sobre os impactos sentidos durante o período das aulas remotas.

Insônia, estresse, síndrome do pânico e depressão foram apontados por eles como sintomas que começaram a ser sentidos após este período. Isto porque, para além da mudança do ambiente de sala de aula, profissionais precisaram se reinventar e aprender a lecionar de uma forma distinta da habitual.

“Professores passaram a ser autores, youtubers. Eles, por exemplo, agora gravam vídeos, e ninguém foi preparado para isso. Tudo aconteceu de uma forma muito rápida. Eles precisaram comprar computador, comprar tripé, comprar câmera para gravar aula. Muitos não tinham nem plano de internet em casa e hoje têm”, disse.

Abismo social

Se alguns estudantes têm acesso a aparelhos tecnológicos de nova geração, outros mal têm um celular com acesso à internet. Aulas remotas escancararam o abismo social presente entre os estudantes. Conforme pontuou a pesquisadora, muitos alunos precisam andar quilômetros para ir até um lugar com um computador para que consigam assistir às aulas.

Mesmo que alguns professores se esforcem para proporcionar uma apostila física para os alunos sem acesso às aulas digitais, muitos acabam desistindo de estudar pela dificuldade encontrada durante este novo período imposto pela pandemia.

“Até mesmo na graduação tem alunos que desistiram porque não estão conseguindo. Eu tinha turma com 7 alunos, quando o normal é ter 30, 40. Eu até entrei em contato com alguns e eles relatavam que não tinham condições. Mas, em todos os níveis de escolaridade, a diferença tende a aumentar. Isso vai ampliar a desigualdade social”.

Ensino remoto emergencial

Professora Rosana Abutakka, que pesquisa sobre tecnologia no âmbito da educação, explicou que a ruptura na educação presencial tem sido denominada por pesquisadores como “ensino remoto emergencial”. Para ela, educação antes estava em descompasso com as novas tecnologias que estão presentes na contemporaneidade.

“Tecnologias digitais estão presentes na nossa vida, estão presentes nas nossas mãos, na nossa bolsa, no nosso bolso. A gente usa diferentes aplicativos e a educação sempre esteve muito apartada dessa realidade. A pandemia trouxe essa ruptura, então tudo começou a acontecer nos espaços online”, explicou.

Dessa maneira, profissionais precisam encontrar meios de aprimorar os processos e práticas elaborados em sala de aula. Há, inclusive, uma mudança na didática dentro do contexto online como, por exemplo, os processos avaliativos e como eles acontecem dentro desses ambientes.

Abutakka explicou que, por ter sido emergencial, processo ficou desgastado tanto para os professores quanto para os alunos. Profissionais, por um lado, não tiveram formação continuada para ensinar dentro do ambiente online. Estudantes, por outro, não se habituaram a utilizar as tecnologias em favor do aprendizado.

“A pandemia aflorou isso para gente. Agora a educação precisa se ajustar isso daí. Como a educação estava em descompasso com a sociedade atual, agora precisa tatear alternativas para superar essas problemáticas. Veio tudo muito apressadamente e agora é preciso resolver essas questões.”

Volta às aulas

Pesquisadora reconhece que crianças precisam voltas às escolas para que interação e socialização entre os estudantes sejam possíveis.

Contudo, ela defende uma “nova cultura” em que ensino presencial e remoto funcionem de forma conjunta, na modalidade denominada híbrida. Para isso, no entanto, professores precisam ser capacitados para utilizar a tecnologia em favor da educação.

“Antes da pandemia a gente ainda ficava com uma discussão muito dualista, mas quando a pandemia passar a gente vai de fato estar dentro de um contexto de educação híbrida que vai mesclar momentos presenciais com atividades online, com uso de tecnologias”.

“A gente tem que criar uma cultura. Os estudantes, bem como os professores, vão conseguir se adaptar a essa nova cultura. Uma cultura de uma educação híbrida que trabalhe com esses dois contextos. É isso que agora a gente tem que começar a se organizar nesse sentido, mas é perfeitamente possível e o nosso grupo acredita que é uma coisa que não vai mais retroceder”, finalizou.

Atualmente, a rede particular retomou as atividades de forma híbrida e alguns municípios, como Sinop, também retomaram as atividades na rede pública. Profissionais da educação começaram a ser vacinados e há a expectativa de que as aulas presenciais sejam retomadas no início do segundo semestre.

Fonte: RD News / Foto: Reprodução

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