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Unicef alerta que pais enxergam palmada como disciplina e não agressão

Levantamento revela que a Lei Menino Bernardo ainda é pouco conhecida e a violência física continua naturalizada no país.

Um levantamento divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) revelou que uma parcela significativa dos responsáveis não enxerga a palmada como um ato de violência, mas sim como um método legítimo de educação e correção para os filhos pequenos.

A percepção distorcida da punição física

O estudo buscou compreender os motivadores que levam pais e cuidadores a agredirem crianças de até 6 anos. A justificativa mais frequente é a necessidade de impor limites. Ouvida pela pesquisa, a especialista de Proteção à Criança do Unicef no Brasil, Luiza Teixeira, destacou essa distorção cultural.

“As famílias sequer consideram o tapa ou a chinelada como violência. Pelo contrário, elas distinguem a palmada do espancamento que elas acham, de fato, errado”, afirma a pesquisadora Luiza Teixeira, especialista de Proteção à Criança do Unicef no Brasil.

Para a profissional, o país conta com arcabouço legal e canais de denúncia estruturados, mas carece de atuação preventiva direta junto aos núcleos familiares, além de capacitação para os profissionais que atendem esse público.

O papel da legislação e a vulnerabilidade social

Completando doze anos de vigência, a Lei Menino Bernardo, também conhecida como Lei da Palmada, ainda enfrenta barreiras culturais profundas para sua efetividade. A norma está integrada ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

“O que o estudo mostra é que essa lei é pouco conhecida pelas famílias e é interpretada a partir de normas sociais que ainda legitimam a violência como forma de educar”, pontua a especialista.

A pesquisa coletou depoimentos de 214 pessoas em áreas de vulnerabilidade social no Rio de Janeiro, em Recife e em Manaus. Conforme a análise, o fenômeno atravessa diferentes contextos, embora ganhe contornos específicos em comunidades marginalizadas.

“Quando se trata de violência contra crianças e adolescentes, acontece em todas as esferas e em todas as classes sociais. A violência ainda é naturalizada. As crianças não são vistas como pessoas, mas como objeto e propriedade dos pais”, diz a pesquisadora.

Caminhos para a prevenção e o desenvolvimento infantil

O relatório aponta que a falta de repertório emocional dos responsáveis, somada à reação impulsiva diante de crises de choro, resulta frequentemente em arrependimento posterior. O isolamento do tema, tratado muitas vezes como assunto estritamente privado, agrava o cenário.

“Se quisermos reduzir a violência contra crianças e adolescentes, precisamos enfrentar as normas sociais enraizadas que ainda veem a prática como natural e necessária, além de garantir serviços públicos que apoiem as famílias e possam prevenir a violência antes que ela aconteça”, afirma Luiza Teixeira.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que mais de 60 mil ocorrências de maus-tratos ou lesão corporal em ambiente doméstico contra menores foram catalogadas no Brasil no último período anual.

A visão da psicologia e da educação

Especialistas reforçam que a primeira infância é uma fase de intensa maturação neurológica e emocional. A psicóloga infantil Mara Gomes, atuante em Brasília, ressalta que os pequenos sentem emoções fortes, mas ainda não possuem mecanismos biológicos para o autocontrole.

Segundo a profissional, o uso de castigos físicos gera submissão ou reatividade agressiva, podendo normalizar relações abusivas na vida adulta. A orientação é acolher o sentimento e estabelecer regras por meio do diálogo franco desde a tenra idade.

Na mesma linha, a pedagoga Marília Paiva enfatiza que comportamentos desafiadores funcionam como formas de comunicação. Para lidar com os episódios de desregulação, a especialista sugere quatro etapas: o adulto deve primeiro manter a própria calma, em seguida acolher a emoção da criança, estabelecer o limite necessário e, por fim, ensinar quando o diálogo for possível.

“Onde o adulto enxerga uma birra, essa criança está assumindo esse comportamento, mas ela também está tentando se comunicar. E a criança precisa do adulto para ajudá-la a se regular”, conclui.

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