A integração entre lavoura e pecuária orienta o sistema produtivo da Fazenda Mirante do Tesouro, em Água Boa (MT). Na propriedade, a produção de soja, milho e capim está conectada à criação e à terminação de bovinos, em uma estratégia que busca aproveitar melhor a área disponível e agregar valor à produção dentro da própria fazenda.
A mudança começou há 11 anos, quando Gilmar Dell Osbel e um sócio adquiriram uma propriedade com pastagens degradadas e infraestrutura precária para a pecuária. A localização e a qualidade do solo, porém, favoreceram a recuperação da área e a ampliação gradual das atividades agrícolas.
Desde então, a fazenda passou por reformas de pastagens, recuperação de estruturas e incorporação da agricultura ao sistema. O resultado foi a adoção de um modelo que conecta diferentes etapas da produção, com o milho desempenhando papel importante na alimentação dos animais.
“Estamos adotando essa prática e o resultado é muito interessante, porque a pecuária entrega muito para agricultura e a agricultura entrega muito benefício para a pecuária”, afirma Gilmar ao Especial Mais Milho.
Produção integrada dentro da propriedade
A Fazenda Mirante do Tesouro tem 2,1 mil hectares destinados à lavoura e outros 1,2 mil hectares de pastagem perene. A soja ocupa a primeira safra, seguida pelo milho consorciado com braquiária em parte da área. Na sequência, o planejamento inclui o cultivo de gergelim e a formação de pastagens.
O sistema permite utilizar o capim para o pastejo e o milho na alimentação do rebanho. A propriedade também trabalha com a terminação dos bovinos, que permanecem no sistema até a venda para o frigorífico.
A estratégia está relacionada à decisão de intensificar a produção nas áreas disponíveis, em vez de priorizar a expansão para novas propriedades. Para Gilmar, a aquisição de terras e os custos de arrendamento exigem investimentos elevados, enquanto a melhoria da estrutura produtiva pode valorizar o patrimônio já existente.
“Aprendi e faço dessa maneira: é a verticalização. Porque para crescer dos lados é muito caro adquirir uma propriedade de um vizinho”, explica o produtor, que procura concentrar diferentes etapas da produção nas áreas da família.
O aproveitamento dos grãos também se estende a outra propriedade, em Canarana, onde Gilmar mantém uma estrutura para esmagamento de soja. O farelo é utilizado na dieta dos animais, enquanto o óleo tem aplicação na pulverização das lavouras. A estratégia permite aproveitar os produtos da própria atividade agrícola na pecuária.
“Então, eu faço a arroba com custo mais baixo. E está dando certo. Achei muito melhor do que horizontalizar”, avalia o produtor em entrevista ao programa do Canal Rural Mato Grosso, que integra o projeto Mais Milho.


Milho acompanha a trajetória da família
A relação com o milho começou antes mesmo da estruturação do atual sistema integrado. Gilmar chegou a Mato Grosso em 1972, aos oito anos, quando a família deixou o Rio Grande do Sul para participar do processo de colonização do Vale do Araguaia.
Na época, a produção agrícola enfrentava limitações de infraestrutura e de acesso a insumos. O plantio de milho começou de forma manual, e a mecanização avançou gradualmente, à medida que os produtores conseguiam acesso a máquinas, calcário e financiamento.
O pai de Gilmar também participou desse processo, adaptando equipamentos para colher milho quando ainda não havia plataformas específicas disponíveis na região. A produção atendia pecuaristas e criadores de animais, inicialmente em sacas e, mais tarde, em volumes maiores.
“Eu vivi o milho a vida toda”, conta Gilmar, que acompanhou as transformações da cultura desde os primeiros anos da agricultura na região.
As lembranças da chegada ao estado também ajudam a dimensionar as mudanças na atividade rural. O produtor recorda as dificuldades enfrentadas pelas primeiras famílias que se instalaram na região, em um período de pouca infraestrutura e recursos limitados para desenvolver a agricultura.
“Foi difícil. A gente sabe da luta, da persistência dos que ficaram, mas valeu a pena”, relembra.
Na produção atual, a escolha do nível de investimento em tecnologia considera o funcionamento de todo o sistema. O milho é cultivado junto à braquiária, o que exige atenção à disponibilidade de umidade no solo, especialmente em períodos de estiagem.
“Eu não faço alto investimento nem em variedades, nem em adubação. Usamos média alta tecnologia”, explica Gilmar.
A produtividade, segundo ele, é avaliada dentro dessa estratégia de integração. O produtor considera que buscar rendimentos máximos no milho nem sempre é a melhor opção quando a cultura divide espaço e recursos com o capim.
“Nunca fizemos tecnologia altíssima pensando em colher 170 sacas. Mas, pela composição do sistema que fazemos, produzindo 130, 135, 125 sacas, está muito bom”, afirma, referindo-se à produtividade por hectare.


Estrutura própria e sucessão familiar
Além da integração produtiva, a fazenda investiu em armazém e equipamentos para dar mais autonomia às operações. A estrutura permite antecipar a colheita, controlar a classificação dos grãos e reduzir a exposição a perdas provocadas por períodos chuvosos.
A possibilidade de retirar os grãos da lavoura antes de condições climáticas desfavoráveis é um dos benefícios apontados pelo produtor. Com a secagem e o armazenamento na própria fazenda, a operação ganha flexibilidade para organizar o ritmo da colheita.
“É muito melhor eu colher um produto um pouco mais úmido, gastar um pouco mais de cavaco para fazer a secagem e energia, do que eu correr o risco de ficar lá na lavoura e de repente vir chuva”, frisa Gilmar.
O investimento também favorece a prestação de serviços a propriedades vizinhas, com a realização de colheitas para terceiros. Embora a construção e a manutenção tenham custos elevados, o produtor considera que a estrutura oferece mais tranquilidade e segurança ao planejamento da safra.
A trajetória da família também está ligada ao cooperativismo. Gilmar mantém uma relação de longa data com o Sicredi, instituição que acompanha a evolução dos negócios e participa do financiamento de custeios e investimentos agrícolas.
“Somos grandes parceiros do Sicredi”, pontua o produtor, ao destacar a relação construída desde a época em que seu pai já participava do cooperativismo na região de Canarana.
Para Edgar Marcolin, assessor de negócios do Sicredi, a continuidade dessa relação entre gerações faz parte da história da cooperativa. A família Dell Osbel mantém vínculos com a instituição desde a época do pai de Gilmar, e os filhos também participam dos negócios.
“O Gilmar, por exemplo, começou lá pequenininho, pai dele, a família e hoje ele está neste tamanho administrando. É fantástico ver isso e que a gente fez parte dessa vida”, comenta Edgar à reportagem do Canal Rural Mato Grosso.
A sucessão já está presente na rotina da família. O filho administra as atividades de outra propriedade em Canarana, enquanto a filha participa de uma empresa ligada ao agronegócio. Na avaliação de Gilmar, a presença dos familiares na gestão contribui para a continuidade do trabalho construído ao longo das décadas.
“Eu acho que o principal de tudo, do sucesso, de qualquer atividade, é a família, é poder ter a esposa e os filhos junto”, destaca.
Para o produtor, a integração das atividades e a participação dos filhos representam a continuidade de uma trajetória iniciada com a chegada ao Vale do Araguaia, há mais de cinco décadas, e que hoje combina produção agrícola, pecuária e planejamento familiar.


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Fonte: agro.mt














