É ridículo, mas é levado a sério pelo presidente candidato à reeleição. Inventaram uma mentira, de que o candidato que vai subindo nas pesquisas quer retirar o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. Parece coisa rasteira, sem-importância, uma bobagem vulgar. Enfim, menos agressiva que uma facada de reta final. Mas foi necessário apelar para o Tribunal Superior Eleitoral para tirar a mentira que poderia prejudicar supostamente o candidato Flávio, embora também possa atingir Lula. Contra a decisão da Justiça Eleitoral, interveio um Ministro do Supremo, Flávio Dino, cancelando a derrubada da mentira, sob o argumento de que é liberdade de expressão religiosa. Claramente uma interferência a favor de manter a circulação nas redes de uma mentira. Em outras palavras, o ministro do Supremo deixou correr a fakenews. Mas aí, entrou recurso para o Ministro Fux e ele derrubou a derrubada da derrubada. O Presidente do TSE, Nunes Marques, reclamou ao Presidente do Supremo da sobreposição de competência, distribuição e infringência do juiz natural. E ainda vai para o plenário do Supremo. Chute para todo lado, como futebol de várzea, mas é, na verdade, um choque entre instituições do Judiciário.
Em entrevista na Bandnews o Presidente Lula, como Dino, impulsionou a fakenews. E tomou a iniciativa, antes de qualquer pergunta. Disse não saber se iriam perguntar, mas que considera que mexer com Nossa Senhora Aparecida ele não aceita. A entrevistadora cortou a palavra, e explicou que se trata de uma comprovada mentira, já desmentida na própria origem, mas Lula não se deu por vencido: “O dado concreto é que está nas redes sociais”. Quer dizer, uma mentira, nas redes sociais, vira dado como certo, isto é, fato. Depois ainda afirmou que quer respeito com todas as religiões. Ninguém insistiu em informar o Presidente que não é ele que quer; é a Constituição, no art. 5, inc. VIII. Lula, dias antes, havia explicado que o vermelho da bandeira do PT é o sangue de Cristo, cometendo o que, para as religiões cristãs, é uma blasfêmia.
A mentira usa um projeto de 2007, de um pastor da Assembléia de Deus, deputado suplente de Mato Grosso, volúvel porque já passou por sete partidos, Victorio Galli, para alterar a lei 6802, de 1980, que criou o feriado nacional de 12 de outubro em homenagem a N.S.Aparecida, Padroeira do Brasil. O projeto mantinha o feriado mas mudava para N.S.Aparecida padroeira dos brasileiros católicos. O projeto foi arquivado. Mesmo porque N.S.da Conceição Aparecida é Padroeira do Brasil não por lei brasileira, mas por decreto do Papa Pio XI, de 1930. É decreto Papal, que talvez só possa ser mudado por outro decreto do Papa. Além disso, Flávio Bolsonaro não tem nada a ver com isso. Em 2007 era deputado estadual na Assembléia do Rio de Janeiro.
Se não é verdadeiro, é oportuno – devem ter pensado Lula e Dino. A última semana de campanha virou vale-tudo porque há desespero com a tendência revelada pelas pesquisas. Com tanta questão importante – corrupção, compra de autoridades públicas, mentira, hipocrisia com apostas, descrédito de instituições, benesses em troca de votos, juros estratosféricos puxados por dívida pública em consequência de déficits fiscais e gastos excessivos em prejuízo de serviços públicos, insegurança pública e jurídica, instabilidade econômica, fuga de capitais – a tudo isso, no entanto, mistura-se uma discussão religiosa impossível de alterar um decreto papal. Mas se a discussão eleitoral é religiosa, deveriam discutir moralidade, ética, justiça, recompensa e castigo, que são a essência da religião. E não são temas alheios ao julgamento nas urnas.








