Neste 12 de outubro, proponho às famílias e aos educadores um gesto simples e desafiador: confiar mais nas crianças
Os jovens de hoje costumam ser descritos como frágeis, pouco persistentes e dependentes de orientação para cada passo. Esse retrato diz mais sobre a forma como foram educados do que sobre eles.
Por amor e por medo, os adultos passaram a antecipar soluções, mediar conflitos e preencher cada minuto livre. Cada intervenção protege no curto prazo. Ao longo dos anos, retira da criança a experiência que mais a fortalece: perceber que consegue.
A criança que tenta, erra e acerta sozinha aprende que suas ações mudam o rumo das coisas. Quando essa vivência falta, instala-se o desamparo aprendido. A criança passa a esperar que o adulto resolva, e o adolescente desiste diante do primeiro obstáculo porque nunca acumulou provas de que é capaz de superá-lo.
A autonomia se constrói dentro do vínculo. O afeto funciona como base segura: a criança se arrisca a explorar porque sabe que tem para onde voltar. A disciplina oferece regras estáveis que, com o tempo, ela incorpora e passa a aplicar a si mesma. Esse caminho, da regra externa à autorregulação, permite ao jovem planejar, cumprir compromissos sem cobrança e decidir com critério.
Esse aprendizado começa cedo e avança por etapas. A criança pequena escolhe entre duas roupas e se veste sozinha. A maior organiza o próprio material e tenta resolver com o colega um desentendimento antes de recorrer ao professor. O adolescente planeja, argumenta e assume riscos calculados. Cada etapa depende da anterior.
O brincar livre é o principal território desse processo. Ao brincar, a criança define um objetivo, cria regras, lida com a frustração quando o plano falha e busca outra saída. Exercita, assim, as capacidades que sustentam a vida adulta: planejar, controlar impulsos e mudar de estratégia. Diante da tela, essas decisões já foram tomadas por quem programou o conteúdo, e a iniciativa da criança fica em suspenso.
Ao adulto cabe uma presença paciente: esperar antes de ajudar, devolver a pergunta, acolher a frustração e deixar a criança fazer sozinha o que já consegue.
Há 20 anos, essa convicção orienta nossa escola, e afeto, disciplina e autonomia se firmaram como pilares da metodologia.
Com os estudantes mais velhos, eles ganham a forma de desafios concretos. Em parceria com o Sebrae, participam de um projeto de educação empreendedora que os leva a identificar problemas reais, propor soluções e ajustá-las. O empreendedor é, antes de tudo, um solucionador de problemas.
Nos intercâmbios na Nova Zelândia, em Londres ou em outros países, o mesmo princípio sai da sala de aula. Longe de casa e em outra língua, os estudantes administram a rotina, resolvem imprevistos e decidem por conta própria.
Matemática, inglês e ciências são indispensáveis. O mundo, porém, vai exigir das nossas crianças algo que nenhum conteúdo isolado garante: comunicar-se, resolver problemas e recomeçar depois do erro.
O melhor que podemos oferecer neste Dia das Crianças é a certeza de que elas são capazes. E a paciência de deixá-las descobrir isso por conta própria.
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Márcia Amorim Pedr’Angelo é pedagoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Colégio Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul_
Fonte: agro.mt














